Uma conhecida música da banda Legião Urbana tem umas premissas verdadeiras. Primeiro ela fala que “Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou”. E complementa: “Mas tenho muito tempo. Temos todo o tempo do mundo”. Depois, parecendo contradizer-se, ou lembrar nossa mortalidade e finitude, ela arremata: “Não temos tempo a perder”. O que a letra acertadamente quer dizer é que o nosso tempo perdido, passado, ficou para trás. Mas que, à parte isso, temos ainda todo o tempo que está à nossa frente. Isso parece muita coisa, mas tudo passa muito rápido, e em breve este “todo tempo do mundo” já será um “tempo que passou”. Então não temos tempo a perder com bobagens e futilidades.
Não dá para reconstruir com palavras o tempo passado. Não dá para remontar o passado através de palavras. Não dá para transmitir oralmente as sensações, os verões passados, os beijos dados, os amores juvenis, as alegrias, os brindes, as velhas amizades, os pores do sol assistidos e as histórias vividas. Essas coisas só existem lá, no local e no momento onde aconteceram, e aqui, dentro de nós, embrulhados às vezes com saudade e nostalgia. Podemos apenas lembrar, e a lembrança é um dom divino! O poder de recordar, de lembrar coisas que nos foram importantes! Como seríamos vazios se vivêssemos somente o agora, e não acumulássemos nada das coisas vivenciadas! Benditas sejam as memórias, que não deixam morrer velhos momentos, velhas alegrias, velhos amores… pedaços de vida! O filho dormindo em nosso braço, ainda frágil e dependente de nossa força; a juventude que tivemos um dia, e que achávamos que seria eterna; um dia em que estávamos ao lado de amigos que tínhamos certeza que estariam ao nosso lado a vida toda; a sensação de que tínhamos toda uma vida pela frente e que o futuro nunca ia chegar. Recordar é eternizar momentos! Enquanto lembramos somos imortais! Aquela versão nossa do passado continua existindo para sempre enquanto vivermos!
Mas, e sempre há um mas, é preciso que nos concentremos no tempo que nos resta! A vida continua passando na nossa janela, sem se importar com nossa tristeza, com nosso tédio, com nosso cansaço, com nosso desamparo, com nossa indiferença e com nossa inércia. Indiferente a nós mesmos e a nossos problemas, a vida continua explodindo ao nosso redor, e as folhas nascem e caem seguindo o ritmo das estações. Não se pode parar o tempo e os calendários. Melhor levantar e mergulhar na correnteza da vida, aquela mesma que está passando na nossa janela. Lembremos a música: não temos tempo a perder! Quero terminar a crônica deste mês com um belo poema do Mário Quintana: “Quem é que pode parar os caminhos? E os rios cantando e correndo? E as folhas ao vento? E os ninhos? E a poesia? A poesia como um seio nascendo…”.
Sérgio Idelano