“Ele imaginava / Que era rei soldado herói pirata e domador / Era o que queria ser / Porque era um sonhador. Ele acreditava / Em dragão bruxa saci cavalo voador / Via o que queria ver / Porque era um sonhador”. Este era o tema do personagem Pedrinho do Sítio do Pica-Pau Amarelo, que fez parte da minha infância (falo da primeira versão, de 1977). E, pensando no menino que eu era, pensando na imaginação fértil que eu tinha, que todos tínhamos naquelas eras, pergunto-me muitas vezes: quando deixamos de ser sonhadores? Quando deixamos de acreditar? Quando nos tornamos tão céticos? Por que a infância está sendo surrupiada de nós tão cedo?
Houve um tempo em que nós tínhamos muitos sonhos, e todos estes sonhos iriam se tornar realidade. Houve um tempo em que acreditávamos em nós mesmos, e nos outros, e na vida! Houve um tempo em que dormíamos bem e, ao acordar, abríamos a janela e olhávamos com amor para o dia que se descortinava à nossa frente. Até que um dia, crescemos, e o mundo joga sobre nós seu bafo fétido, e a humanidade mostra a nós sua cara feia e sórdida. Este é um processo natural, o processo de crescer e tornar-se adulto. A questão é que isto está acontecendo cada vez mais cedo. A questão é que nossos filhos estão crescendo cada vez mais cedo. E, juro para vocês, isto não é bom! Porque eles se despedem cada vez mais cedo do tempo em que nossos sonhos eram facilmente realizáveis, do tempo em que o nosso destino estava logo ali na frente, e era tranquilo e sem nuvens, do tempo em que nos sentíamos seguros, e amparados, e amados, e felizes!
A vida é breve, e penso que temos nesta breve vida, antes da morte definitiva, uma outra morte igualmente importante e traumática: a morte da infância! A infância morre quando percebemos que temos que trocar a pele e assumir nossa forma de adulto. A infância morre quando percebemos que não podemos mais voar, e que nossas palavras e atos passam a ter consequências. A infância morre quando todo o sonho e fantasia são substituídos pela saudade de uma casa velha (porque no passado de todos nós existe uma casa velha. E geralmente isso é bastante dolorido!).
Para finalizar esta pequena crônica que fala da morte dos sonhadores, queria falar do Horácio. Eu adoro o Maurício de Sousa, e dentre todos os seus personagens, o Horácio é um dos meus preferidos! O Horácio é puro, honesto e tem um enorme coração! O Horácio é tudo aquilo que a humanidade precisa no mundo escroto de hoje! O Horácio fala sobre estrelas, e sobre como às vezes, na correria do dia-a-dia, esquecemos de olhar para elas. Esquecemos da poesia e dos sonhos! Esquecemos das coisas belas! O Horácio fala sobre as pessoas que perderam esta capacidade, a capacidade de sentir a poesia, a capacidade de sonhar, a capacidade de distinguir o belo no meio do entulho. Ele fala sobre como nossa vida tem lá suas nuvens escuras, mas fala também que por trás delas sempre há as estrelas. A poesia e os sonhos estão sempre ali, muitas vezes atrás de uma nuvem escura. Mas as nuvens passam! E nós? Estamos perdendo a capacidade de sonhar? Conseguimos ainda enxergar poesia neste mundo bisonho de hoje? Se não, peguemos um pouco do Horácio para nós, e nunca percamos a poesia, o sonho e a pureza da infância!
Sérgio Idelano