Poucas coisas são tão tristes quanto o fim das coisas, o fim de algo que já foi alegre, o fim de um amor! Mas, mais triste que isso tudo é desconhecer, ou tentar ignorar, que o fim chegou! Deve ser angustiante, como estar em uma festa que já acabou, como ficar em algum lugar depois da hora de ir embora, como perder o momento de sair! Devemos ler os sinais. Devemos sair antes que o fim efetivamente chegue, antes que algo efetivamente acabe. Devemos sair antes de sentir aquela sensação de fim de festa e de vazio. Isso vale para os amores, como eu falei, mas vale também para um emprego, um grupo, uma situação e até uma amizade onde mudamos tantos que percebemos que não temos mais em comum aquilo que transformava nossa relação em amizade.
Uma das coisas mais deprimentes é um bar fechando com você dentro. Você sentado em uma mesa, observando as persianas serem fechadas, os pratos sendo recolhidos das mesas, o chão sendo limpo ao redor de você, como se você fosse um anteparo, algo a ser arrodeado, algo atrapalhando! O barulho na cozinha: pratos, garfos, colheres e facas sendo jogados na pia. E, o pior de tudo, as mesas e cadeiras ao seu redor sendo empilhadas, como a dizer para você: o que fazes aqui? Por que não segues viagem? Este porto não é mais o seu! Este porto não é mais seguro. A felicidade não mora mais aqui! É como no poema de Drummond (e na música do Chico): e agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou…
É preciso saber a hora de sair! É preciso conhecer o tempo das coisas e obedecer este tempo! Até mesmo o tempo de envelhecer! De reconhecer que algumas coisas não podemos mais fazer, que o tempo delas ficou um pouco para trás. O nosso mundo é um grande ponto de encontro! Aqui encontramos pessoas! Aqui amamos e desamamos! Aqui fazemos amizades e desfazemos algumas delas! Aqui as coisas começam e acabam, e nem sempre duram para sempre. E é bom que seja assim. E é bom que procuremos sempre estar em paz conosco, cercando-nos de quem nos faz bem, das coisas que nos deixam confortáveis. É para isso que temos livre arbítrio! Eu, de minha parte, à medida que envelheço estou me tornando mais despojado, com os amigos que quero ter, com a companheira que me faz feliz e com coisas que me fazem sorrir.
Dito isto, desejo a todos uma vida segura, cercada de bons amigos e amores eternos. Mas, e isso é importante, desejo também que os amores, quando (e se) tiverem que terminar, nunca terminem em rancor. E que o fim das coisas seja apenas o começo de um novo ciclo.
Sérgio Idelano