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NAS AREIAS DA AMPULHETA…

A correria da vida impede que percorramos a vida na velocidade necessária! Colocamo-nos, tal qual os áudios que ouvimos em whatsapp, na velocidade 1,5 ou 2 e seguimos em frente, sem olhar para os lados! E não temos tempo para apreciar, com o vagar devido, a manhã e o sol despontando por detrás dos prédios. Não temos tempo para ouvir o silêncio à nossa volta. O maravilhoso som do silêncio! Não temos tempo para ver o brilho da lua e das estrelas, e pensar o quão impressionante são estes corpos celestes. Não temos tempo de demorar nosso olhar nas pessoas que nós amamos, para conversar, ouvir ou simplesmente perceber que o amor é uma coisa preciosa e fugidia. Não temos tempo de sonhar com as coisas que devem ser sonhadas e de olhar para lugares que merecem ser olhados com mais atenção. Muitas vezes só lembramos esses pequenos tesouros lá na frente, quando o tempo passa e, olhando um retrato antigo ou relembrando um lugar por que passamos, percebemos que tudo ficou no retrovisor das coisas que passam! E percebemos também que não dá para retroceder no tempo, e que só há um tempo para viver uma vida.

Mas como não correr, se o tempo passa muito rápido e a vida é muito curta? O que podemos fazer nós, reles mortais, para sermos felizes em condições tão áridas, quais sejam, um tempo veloz numa existência tão ínfima? Cultuar cada minuto! Este é o tom. Dar valor a cada minuto, mesmo os minutos tediosos, cotidianos e arrastados. Eles são tempo. E todo tempo merece ser vivido! Prestar atenção aos momentos, dar importância aos momentos, valorizá-los, é muito mais que uma coisa banal. Tem importância vital! E, muitas vezes, momentos são únicos, não tornam a se repetir.

Os dias passam mesmo voando, esses dias que são como cartas de baralho nas mãos de um profissional. Quase não dá para contar. Não é culpa deles. Eles apenas fazem parte do tempo. Este, sim, tem pressa. É tarde, é tarde, já dizia o coelho branco da Alice. Bom, talvez não seja tarde ainda para algumas coisas. Talvez não seja tarde para dizer algo que queremos para alguém! Talvez não seja tarde para mudar para melhor! Talvez não seja tarde para fazer nossa parte! Talvez não seja tarde para ser feliz! Talvez não seja tarde para desacelerar e olhar para o lado. Talvez não seja tarde para prestar atenção nos momentos, nos lugares, nas coisas bonitas. Talvez não seja tarde para parar tudo o que estamos fazendo (todas essas coisas que julgamos tão importantes) e ver o sol se pondo por detrás do horizonte, deixando atrás de si um rastro vermelho de perplexidade!

Ao colocar o ponto final nesta crônica, levantei a vista do texto e olhei para a tela, visualizando em uma outra aba um processo importante, cuja prioridade havia me sido alertada e lembrada, e de cuja conclusão eu estava sendo cobrado. Ignorei por um momento o processo e toda sua importância, abri a porta da sala e fui até a sacada do prédio onde trabalho. Eram precisamente 16 horas. Olhei para o céu e vi a mais bela tarde que já vi em toda a minha vida. O céu, todo ele, estava coberto de nuvem, como se um grande lençol tivesse sido congelado no momento em que foi jogado para cima. As nuvens, porém, não eram compactas. Era um trabalho de arte feito em crochê, estendendo-se em vários tufos de lã, interligados uns aos outros por finos fios de algodão e formando pequenos círculos no centro. O delineamento era perfeito. Em certo momento, um avião, que acabara de decolar, penetra lentamente naquele santuário. Penetrava timidamente, como se não ousasse invadir o espaço de uma maneira brusca. Pedia licença, era um amante sem pressa e sem tempo. As nuvens estavam matizadas de coloração rosa e alaranjada. Foi como se Renoir tivesse usado o céu para desenhar uma de suas telas, a mais bela de todas. O quadro era de um impressionismo fantástico. Não parecia real; não era real, tenho certeza disso. E eu, naquele momento, assim como uma revelação, percebi que estou vivo, e que isso é tudo o que importa!

Sérgio Idelano

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