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Aos Mestres com Carinho…

Como (quase) toda criança e adolescente, eu sempre tive uma relação de amor e ódio com meus mestres. Só muito depois, já adulto, passei a dar a importância que eles mereciam, que todos eles merecem. Ensinar é uma arte, e muitos cumprem com primazia seu mister. Tive mestres que me incutiram ensinamentos que trago na memória até hoje. Um dos meus principais mestres foi o temido Padre Florêncio, uma das maiores lendas vivas do Diocesano, tanto pela capacidade extrema com que proferia as aulas de química, matéria do qual foi professor titular vários anos, quanto pelo terror que sua figura impingia ao alunado. Só quem foi aluno do Florêncio pode ter uma ideia da rigidez com que ele tratava a turma, procurando sempre fazer de seus pupilos mais do que simples alunos, dotando-nos de senso de moralidade, responsabilidade e amor ao próximo. É claro que, para chegar a esse aprendizado final, nós penávamos muito. Uma das normas do Florêncio era proibir o trânsito de alunos nos corredores depois que tocava o sinal. Todos tinham que esperá-lo sentados na carteira. Aquele que era pego “fora de formação” sofria uma pena, sendo a sua preferida a declamação da Canção do Tamoio (poesia de Gonçalves Dias), que deveria ser feita pelo infeliz na frente da classe.

Assim como a poesia ficou folclórica para quem estudou no Diocesano, também ficou folclórico o aluno que mais a declamou: um colega nosso, cujo nome omito, que com seu jeito irrequieto nunca aguentava esperar na cadeira e não cedia à tentação de dar uma espiadinha na porta para ver se o padre já vinha na escada. Invariavelmente era flagrado. Começou por declamar a primeira metade da poesia, passou para a segunda metade, por fim declamou toda. Quando não restava mais poesia para ser declamada, o padre passou às provas orais. A maior revolta dele era que os outros alunos também metiam o olho de fora para espiar, conseguiam ver a hora em que o padre vinha e sentavam-se naturalmente. Já ele não tinha a mesma proeza e achava que era um azarado de marca maior. Um dia, depois de identificado pela enésima vez num grupo de seis alunos que corriam para dentro da sala, nosso amigo desabafou. Disse ao padre que várias pessoas também olhavam e que somente ele era sempre identificado. O padre coçou o queixo e falou, com seu forte sotaque italiano: “Sim, ma com uma cabeça desse tamanho”!

O padre Florêncio era, além de tudo, um gozador de primeira linha, e sabia usar de sarcasmo e ironia como ninguém. Depois que saímos do colégio, nas nossas reuniões anuais, era ele quem sempre celebrava nossa missa. Lembro a última missa que ele celebrou. Acho que foi por ocasião dos 30 anos de término do Diocesano. Ele já velho e muito doente chorou muito ao final da missa, e disse que tinha muita saudade daquele tempo. Ele foi um dos grandes, e espero que esteja em um bom lugar!

Havia outro padre que ministrava uma disciplina chamada E.M.C (Educação Moral e Cívica): o Costinha. Era o oposto do padre Florêncio: metido a moderno, com ideias de esquerda, fazia o tipo subversivo. Certa aula, ele nos dividiu em grupos e disse que cada grupo deveria escolher um bairro da periferia e proceder a um trabalho de pesquisa, a ser apresentado para ele dali a uma semana (durante esse período estaríamos dispensados da sua aula). Nesse trabalho, deveriam constar dados da comunidade, como renda, faixa etária, problemas sociais, aspirações, qualidade de vida, essas coisas. Nosso grupo era formado por alunos que o padre Costinha chamaria de “alienados” ou “filhos de uma cultura opressora e reacionária”. Contudo, chegamos à conclusão de que era melhor do que assistir à aula e fomos parar no bairro Matinha, escolhido por nós porque era perto do Iate Clube e, assim, depois do trabalho social, poderíamos pegar uma piscina e jogar uma sinuca.

Marcamos o encontro na porta do clube, e de lá iríamos a pé (o bairro era adjacente ao clube) cumprir nosso nobre trabalho. Quando todos chegaram e nos preparávamos para descer, o Helder, colega integrante do grupo, ficou para trás, pensativo. Percebemos e paramos, inquirindo o colega se estava tudo bem. Ele falou: “eu estive pensando…a gente poderia poupar tempo e fazer nosso trabalho de pesquisa dentro do Iate, tomando uma cervejinha; afinal de contas, todos os pobres têm os mesmos problemas e a gente vê todo dia no jornal esses problemas”. Paramos, estupefatos a início, pensativos depois. Venci minha consciência e fui obrigado a reconhecer que era uma ótima ideia. Passamos três dias no Iate, tomando cerveja e preparando a pesquisa. Dividimos o grupo em dois de dois alunos, um dos quais faria o papel dos pesquisadores e o outro o dos periféricos. Depois invertíamos, para que o outro grupo pudesse também responder às questões. Entregamos o trabalho e, no dia que o padre o devolveu, falou para nós que se tinha surpreendido com nosso grupo, que tínhamos feito um trabalho de nível e conseguido, como nenhum outro, penetrar na triste realidade dos menos favorecidos. Ganhamos nota 10, com louvor. Não sabia ele o quão filhos da puta nós éramos. Espero que ele esteja em um bom lugar também.

Havia muitos outros. Professor Marcelo, de matemática (minha filha formou-se com a filha dele e pudemos tomar uma dose de whisky no dia da festa de formatura), professor Ivaldo, de física (sempre que me vê me dá um grande abraço), Vivadavi, de química, Valdir, o Pepita Negra, de história (esses dois últimos já falecidos), Nílson, de redação, Eulinda, de português (tínhamos uma relação de amor e ódio e ela, que me achava um filho de papai que ainda poderia ter salvação, deu-me de presente um livro intitulado As Palavras de Ghandi), e mais tantos outros. Professores que dedicaram sua vida e sua saúde mental para ensinar um bando de alunos que, muitas vezes, não queria porra nenhuma com a vida! Lembro do professor Albino, de Biologia, com olheiras e olhar cansado depois de um dia todo de trabalho, em uma terça à noite, dando uma aula noturna pra nós do terceiro ano científico do Diocesano, em uma noite que não queríamos colaborar. Ele parou a aula, dirigiu-se até nós, turma do fundão, suspirou e falou para todos nós, em alto e bom tom: “Eu comparo vocês a um bando de Alantoides”! Na época não existia celular e Google, e ficamos olhando um para o outro, sem saber do que tínhamos sido chamados, ou se era bom ou ruim. No dia seguinte, um dos nossos colegas chegou ao colégio e falou: “Pesquisei! Alantoide é tipo um órgão responsável pela secreção dos seres inferiores. Ou seja, ele nos chamou de cu de ameba”! Até hoje, quando nos reunimos e alguém faz alguma coisa reprovável, alguém fala: “Eu te comparo a um alantoide, meu caro”!

Caros mestres, que saudade de vocês! O quanto eu queria poder ter dito na época o quão importante todos vocês foram! O quanto eu queria ter dito obrigado! O quanto eu queria neste momento poder dar um abraço em cada um de vocês e falar: “Desculpa por qualquer coisa. Pelas vezes que fui um filho da puta e pelas vezes que agi com anarquia e rebeldia. Eu era apenas um jovem mimado. Mas no fundo nós temos uma enorme dívida com cada um de vocês. Obrigado por terem me moldado, mesmo contra minha vontade e resistência. Obrigado por terem feito de mim uma pessoa melhor”!

Por Sérgio Idelano

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