Ontem foi comemorado o Dia Nacional do Auditor de Controle Externo e, tal qual o título aí encima sugere, quero puxar um pouco de brasa para nossa sardinha e falar um pouco sobre amizade e sobre o prazer de trabalhar em um ambiente salutar. Estou aqui há 30 anos! Muita coisa mudou. Só os mais antigos vão saber do que estou falando. Aqueles processos físicos enormes circulando pelos corredores, sob o suor dos coitados da turma de apoio. As coisas ainda bem no começo, internet para pouquíssimas pessoas, tudo insipiente. A tecnologia nas inspeções era bem básica. Usávamos uma máquina fotográfica do TCE para fazer os registros. Lembro aqui uma história de quando fizemos uma auditoria no PAP, em pleno inverno, rodando por estradas inexistentes. Certa vez, andávamos em uma estrada que acabava num riacho, cheio até a tampa e com uma corredeira fortíssima. Seu Galego (então motorista) desceu do carro e passou a confabular com um vaqueiro, que estava passando em seu cavalo. Momentos depois volta ao carro e diz: “A estrada continua cinquenta metros abaixo. Temos que atravessar o riacho, descer por dentro do seu leito e subir mais adiante. Segundo meu amigo ali, dá pra passar carro”. Eu e mais dois colegas (vou omitir aqui o nome dos envolvidos), que não somos doidos, tiramos nossa roupa (naquela viagem só ia homem) e fomos nadando. Ficou no carro o seu Galego (que, por força de suas atribuições, tinha que dirigir o submarino, digo, o carro) e um colega que preferiu arriscar a vida a tomar um banho. O carro, contra todas as nossas expectativas, passou, e este colega, por vingança, tirou uma foto nossa com a máquina do TCE, o que nos trouxe alguns transtornos quando da revelação, já que não conseguíamos explicar o que um bando de marmanjos nus tinha a ver com a auditoria.
Naqueles tempos, a ligação com os jurisdicionados era muito mais carnal! As denúncias, por exemplo. O cara vinha aqui com a denúncia debaixo do braço, entregava no protocolo e já queria o resultado imediatamente. E aqui faço mais uma pausa para contar outra história da época. Estávamos na sala de um relator quando adentra um vereador para tratar de alguns assuntos relacionados a uma denúncia. Enquanto o assessor do relator discutia o processo com o vereador, recebeu o telefonema de uma de suas filhas. Daí pediu desculpa e disse que tinha que se retirar para resolver um assunto particular, sugerindo que ele terminasse de explicar a situação ao relator, quando este chegasse. Quando o colega saiu apressado, eu falei, para quebrar o gelo: “Nosso amigo aí tem uma prole enorme, coisa rara nos dias de hoje”! O vereador assentiu com a cabeça e permaneceu calado. Meia hora depois chega o relator e, mal este adentra o gabinete, o vereador começou a explicar o seu problema, frisando que já havia explicado parte do problema pro seu assessor. O relator perguntou com qual dos assessores ele tinha falado. O vereador então respondeu, na lata: “Doutor, o nome mesmo eu não sei não. Mas é um que tem um pau enorme”!
Voltando a falar sério, hoje temos ferramentas avançadas e nosso trabalho ficou muito mais fácil. Ou não, porque grandes poderes trazem grandes responsabilidades! Mas uma coisa não muda: o fator humano! As pessoas! E é delas que eu quero falar. É nisso que eu queria me concentrar! Nas pessoas! Neste momento aqui! Lembro de uma frase de um livro de Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray, em que ele diz que“ haveria necessidade de ensinar aos homens como deveriam concentrar-se nos momentos de uma vida que por si mesma nada mais é que um momento”. Tudo passa muito rápido mesmo! Então não esqueçamos o essencial! Não esqueçamos a amizade! Não esqueçamos os momentos! Não esqueçamos de ter sempre um olhar gentil para o colega ao lado. Ele é nosso aliado na luta contra a corrupção e em busca de um país melhor. Estamos do mesmo lado! Viva o auditor e seu importante trabalho!
– Sérgio Idelano